A evolução da responsabilidade

A partir do momento em que uma pessoa entende, de verdade, o conceito de Accountability, adquirindo a noção de pegar para si a responsabilidade e gerar respostas com resultados, sua contribuição para consigo mesma e para com os outros ao seu redor eleva-se a um estágio mais alto. Quando isso acontece, nos tornamos melhores filhos, pais, líderes, pessoas.

O planeta precisa de pessoas melhores. Nos próximos anos, provavelmente, vamos assistir a uma mudança ainda maior nos relacionamentos, especialmente no ambiente corporativo. O mundo vai continuar mudando e nossa concepção de responsabilidade precisa acompanhar essas alterações. As estruturas hierárquicas tendem a se tornar menos rígidas; a colaboração genuína será cada vez mais esperada e valorizada.

O trabalho, sabemos, deixou de estar preso a uma sala instalada na sede de uma empresa. O profissional vai trabalhar a partir de diferentes lugares, comunicando-se em tempo real com a sua organização. Até mesmo em ambientes fabris as linhas de produção vão refletir essas mudanças. Em toda parte, a relação com os colaboradores sofrerá alterações provocadas por uma evolução do Código Civil, pela pressão dos sindicatos ou meramente pela simples mudança de mentalidade do colaborador, que não vai mais se sujeitar a trabalhar em qualquer ambiente.

Se esperarmos que as soluções para nossa vida pessoal e profissional venham dos outros – das instituições, do governo, da empresa, dos nossos pais, do cônjuge, do nosso gestor, das circunstâncias – sejam elas quais forem – continuaremos a culpar o mundo pelos nossos sonhos não concretizados.

Questão de consciência

Em linhas gerais, podemos dizer que a responsabilidade evolui a partir da educação, dos costumes, das leis. Na minha avaliação, algumas leis brasileiras retiram a responsabilidade dos indivíduos, em vez de estimular.

É o caso da Lei 9.502[1], de 1997, que dispõe sobre os avisos a serem fixados nas portas externas dos elevadores instalados nas edificações públicas e particulares. É o clássico lembrete: “Aviso aos passageiros: antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se parado neste andar.”

A meu ver, isso tira das pessoas a consciência de ter atenção aos elevadores. Nem seria preciso que uma lei nos lembrasse disso. Olhar para essas questões é uma missão que cabe a todos nós. Vale destacar ainda que novos desafios se apresentam a cada dia.

Vejamos, por exemplo, a disseminação de notícias falsas nas redes sociais e nos serviços de troca de mensagens, as chamadas fake news, em inglês. A meu ver, quem repassa uma informação é responsável por ela, precisa ter critérios, conhecer a fonte, saber o que está fazendo. Não se pode sair por aí repassando mentiras, os prejuízos podem ser grandes para todos.

Em contrapartida, o comportamento dos accountables, daqueles dotados por essa virtude moral, arrasta junto outras virtudes. Quem tem Accountability tende a ser mais gentil, mais comprometido com os outros, mais compassivo e tolerante, quer o melhor para todos. São normalmente pessoas mais colaborativas e empáticas.

Mas afinal, o que é Accountability?A descoberta da Accountability foi tão impactante para a João Cordeiro que, há mais de 20 anos, nos dedicamos a levar o conceito para o maior número possível de pessoas. Já foram mais de 360 mil homens e mulheres impactados pelo tema, seja por palestras, workshops, treinamentos, mentorias, consultorias.

Agora é a vez de compartilhar com você o significado do termo. A Accountability é uma virtude poderosa e própria daqueles que agem de acordo com o que a sua consciência manda. Os accountables fazem o que é certo, respondem de forma correta diante de qualquer situação, são capazes de agir diante de qualquer problema.

Você é uma pessoa assim? Estamos falando da capacidade de pegar a responsabilidade para si e gerar respostas com resultados. E isso é tão forte que, a partir de experiências, posso dizer que todos os processos mentais de quem foi genuinamente tocado pela Accountability se transformam. Sem perceber, essa pessoa eleva seu nível de percepção e de ação diante dos desafios da vida. Algo que vem de dentro para fora e faz de nós indivíduos mais conscientes.

É tão amplo e profundo o sentido da Accountability que traduzir o termo do inglês seria limitar o seu significado. Não é possível, por exemplo, equiparar a termos como responsabilidade ou protagonismo, para citar apenas duas possibilidades. Ao tentar chegar a uma tradução, perdemos a noção de que essa palavra original do inglês expressa algo que desenvolvemos ao longo do tempo, que não nasce conosco.

A origem da palavra, diga-se, é baseada na noção de contabilidade ou accounting. Isso porque, nos países de predominância católica, muitos dos registros básicos dos cidadãos eram feitos pela igreja. Fora desses locais, nos quais predominavam outras religiões, geralmente havia, nas aldeias, a figura de um cidadão muito responsável e no qual todos confiavam que registrava e concentrava informações relativas a dinheiro, bens e dívidas. Além da boa reputação, da ética, essa pessoa precisava saber contar bem, sendo denominada accountant.

Comprometimento

Acima de tudo, queremos convidar você a refletir sobre o comportamento accountable em todo o seu protagonismo e força. Quem leva a Accountability para a vida assume um comprometimento consigo mesmo sem igual, um brilho capaz de destacar qualquer um no meio da multidão. Torcemos para que a vontade de seguir em frente que acompanha aqueles que se encaixam nesse perfil seja uma marca sua também.

Novidade boa: o primeiro livro do João Cordeiro: Accountability - A Evolução da Responsabilidade Pessoal, que apresentará um panorama completo do que há de mais importante sobre o assunto, já está disponível nas livrarias.

Vamos em frente. Esperamos que você tenha gostado deste artigo!

O dia em que uma diretora de escola ensinou o que era Accountability

Eram muitas as caixas com brinquedos espalhadas pelo chão. Além delas, preenchiam o ambiente várias estantes altas, repletas de livros. Em sua maioria, eram títulos sobre educação. Ao chegar naquela Escola Municipal de Educação Infantil (Emei) em Americanópolis, na zona sul da capital paulista, fui encaminhado para a sala da diretora. Estava ali para fazer uma palestra para os professores. O ano era 1999 e eu fiquei tão impressionado com o que vi que decidi elogiar o trabalho da prefeitura ao investir na aquisição de materiais de apoio para aquela unidade de ensino. Foi quando ela me olhou nos olhos e perguntou: “Você acha que foi a prefeitura que comprou tudo isso?”.

Aquele acervo, ela me contou em seguida, havia sido adquirido pelos funcionários do colégio. E isso por meio de um acordo interno: a cada três meses, todos os colaboradores, da diretora à auxiliar de limpeza, doavam 10% do salário para a aquisição de livros em sebos e de brinquedos nas lojas de comércio popular da 25 de Março, em São Paulo.

Depois de explicar a iniciativa, ela completou: “Fazemos isso porque somos apaixonados pelo nosso trabalho e por essas crianças”.

Saí mexido daquele lugar, pensando nas palavras dela. O que faz uma pessoa sair do seu quadrado para ajudar o outro? Aquilo era, sem dúvida, uma quebra de paradigma. Comentei sobre o fato com alguns amigos e com o meu mentor, Bemvenutti, e ele me disse que existia até uma palavra para traduzir aquela atitude em inglês: Accountability. Por fim, me orientou a estudar o assunto.

Comprei todos os livros que pude, importados, não havia literatura sobre isso no Brasil. Fui mergulhando no conceito, que passei a incluir nas minhas palestras. Quando me dei conta, havia direcionado a minha trajetória ao entendimento, debate e divulgação do significado da Accountability no Brasil e no mundo.

Mais de 20 anos depois, consolidei uma abordagem única, relacionando a ideia a uma macro virtude moral. Aquela diretora de escola em Americanópolis foi apenas a primeira pessoa incrível a cruzar o meu caminho e me ensinar lições valiosas sobre o tema.

Em essência, a Accountability é a capacidade de pegar a responsabilidade para si e gerar respostas com resultados. É assim que agem os indivíduos accountables. Trata-se de uma virtude que muitas pessoas vivenciam de maneira intuitiva, sem se dar conta de que isso tem um nome. Simplesmente agem de acordo com o que sua consciência manda. Fazem o que é certo, respondem de forma correta a cada situação, adaptam-se aos problemas do cotidiano. Espero que você seja uma pessoa assim: poderosa e transformadora. Se ainda não for, saiba que pode ser. Basta estar consciente e olhar para si mesmo com vontade de transformar aquilo que não está bom.

Longe do lugar de vítima

Outro ponto fundamental: a Accountability se propõe a combater o instinto natural de fuga/defesa que nos leva a um lugar de vítima, fugindo da responsabilidade e culpando os outros e as circunstâncias por tudo o que nos acontece. Apontar culpados, aliás, é a essência da chamada “Desculpability”, termo que criei e transformei num livro de mesmo nome.

 E você, já tinha ouvido falar do assunto? Se considera um indivíduo accountable? Que tal começar a pensar sobre isso? Seja como for, para ajudar você a refletir, vou passar a escrever regularmente sobre o tema aqui no LinkedIn.

E tem mais: até o final de 2022 chegará às livrarias a versão atualizada do meu primeiro livro: Accountability - A Evolução da Responsabilidade Pessoal, que apresentará um panorama completo do que há de mais importante neste debate. Mal posso esperar para anunciar aqui a novidade quando tudo estiver pronto.

Vamos em frente. Fique à vontade para compartilhar comigo aqui mesmo, nos comentários, ou nas minhas redes sociais, o que achou deste artigo e como você foi apresentado ao tema.

Até a próximo conteúdo!Por que o Brasil precisa de virtudes morais?Quem realmente está ensinando virtudes morais para a próxima geração? Não sei o quanto isso te preocupa, mas eu tenho pensado muito sobre esse assunto nos últimos anos, principalmente após a publicação do meu primeiro livro, Accountability, a Evolução da Responsabilidade. Com o livro no mercado, passei a receber de leitores, diversos casos que me fizeram refletir sobre o futuro do nosso país, como esse, por exemplo: Em uma escola particular bem tradicional, localizada em uma das capitais do país, ocorreu no final do ano passado um caso bizarro. Durante o intervalo, um aluno perdeu o seu iPhone. No caminho de volta para a sala de aula, ele topou no corredor uma rodinha de alunos de outra turma, na qual um dos adolescentes contava alegremente aos seus amigos que havia tido a sorte de achar um iPhone. Quando o dono do aparelho disse que era dele, o aluno que encontrou o aparelho disse que não iria devolve-lo. A “negociação de cavalheiros” durou apenas alguns segundos. Rapidamente, evoluiu para um bate boca, que por sua vez foi escalonado para ameaças em voz alta, do tipo: “Vou te pegar na saída!”. O bedel interveio e o caso foi parar na diretoria. Mas, mesmo lá, diante da coordenadora pedagógica e da diretora, o aluno “sortudo” que encontrou o iPhone se negava a devolver o aparelho. Em função disso, seus pais foram intimados a comparecer - em caráter de emergência - na escola. No dia seguinte as 7:45, o aluno que achou o iPhone e seus pais, um casal de médicos conhecidos na cidade, compareceram a sala da diretoria. Assim como os pais do aluno que havia perdido o tal aparelho. A sala ficou cheia e o clima pesado. De um lado da sala, estavam os pais com o filho “sortudo”. Do outro lado, os pais com o filho “azarado”. No meio estavam a coordenadora pedagógica e o bedel que apartou a briga. Após ouvirem da diretora a explicação do que ocorreu, usando termos bem suaves como, “o que ocorreu deve ter sido um mal entendido” ou que, “provavelmente foi uma confusão entre os aparelhos” e até mesmo sugerindo que talvez “tudo não passava de uma brincadeira de um outro adolescente que não estava presente”, ela pediu que o aparelho fosse devolvido ao dono. O pai do garoto “sortudo” ouviu e respondeu calmamente a todos: “ Meu filho não vai devolver nada. Achado não é roubado e quem perdeu é relaxado!” A criança não nasce pronta do ponto de vista da moral e da ética, assim como uma criança não nasce sabendo virtudes acadêmicas tais como: português, matemática, história, geografia e outras matérias do ensino fundamental I, ela também não nasce pronta do ponto de vista da moral e da ética. Pais de crianças pequenas geralmente não gostam muito de ouvir isso, entendo. É difícil olhar para aquela coisa linda que temos em casa e imaginar que ela está moralmente incompleta. Acreditar que as crianças nascem prontas é uma grande tolice. O pai ou a mãe que acredita nisso, além de retirar de si a responsabilidade por desenvolver seu filho, delega inconscientemente essa formação para outros. Alguém um dia vai pagar essa conta. Virtudes morais são fundamentais para o convívio na sociedade: sem elas, a criança pode crescer com grande chance de se tornar um adulto agressivo, desonesto, egoísta, indiferente, preconceituoso e racista. Se por um acaso, alguém abandonar um bebê em uma floresta e ele venha a sobreviver ajudado por animais, sem a presença de humanos por perto, dificilmente ele agirá como um humano. É provável que ele mal consiga fica em pé, em uma posição ereta. Como também a chance de que ele venha a formular frases é muito pequena. Mesmo os comportamentos relativamente simples como o sorrir, ele terá dificuldades em elaborar e muito menos desenvolver empatia. Essas habilidades necessitam de um processamento mental que recruta um conjunto de neurônios específicos, denominados de neurônios de espelho. Localizados no lóbulo frontal, os Mirror Neurons são ativados através da referência social, em outras palavras, a criança precisa ver ou perceber o comportamento no adulto para imitar. Tarzan e Mogli, são lindas histórias, mas, infelizmente, estão muito mais para romance do que para a realidade. No livro, Feral Children and Clever Animals: Reflections on Human Nature, de Douglas Candland, o autor estuda alguns casos de crianças resgatadas de selvas, ele os compara com animais inteligentes. Sem referência social e sem contato com princípios morais, voltamos a nossa origem, Homo Habilis. Há algumas décadas atrás, valores e princípios morais eram ensinados nas famílias pelos pais e avôs, porém hoje em dia, isso não ocorre plenamente. Essa formação foi delegada para outros, tanto consciente quanto inconscientemente. Parte foi transferida para as escolas, outra parte, indiretamente foi para o YouTube, Netflix e WhatsApp, Instagram, Facebook, Big Brother e outros. Apesar de algumas escolas particulares já estarem fazendo movimentos no sentido de educar comportamentos sócio-emocionais, nem todas estão preparadas para o ensino dessa habilidade. Já em relação as escolas públicas, algumas tiveram no passado um papel importante na formação ética e moral, mas atualmente mal conseguem dar conta do currículo básico. O primeiro contato que tive com ensino de virtudes morais para crianças foi em 1982, quando visitei pela primeira vez uma escola em Kokkola, Finlândia. Fiquei chocado com o que vi e descobri que países que ensinam virtudes morais desde cedo, além de estarem classificados entre os melhores sistemas de ensino do mundo, são também os menos corruptos. Será coincidência? Me refiro a Coréia do Sul, Dinamarca, Finlândia, Japão, Noruega, Nova Zelândia e Suécia. Lá, em algumas escolas mais e em outras menos, crianças a partir dos 4 anos, aprendem através de atividades pedagógicas, conceitos que irão fornecer a base da cidadania. Além da macro virtude Accountability pessoal, elas também aprendem as 17 virtudes essenciais para a cidadania como a colaboração, compaixão, coragem, diversidade, disciplina, equilíbrio, franqueza, gentileza, gratidão, honestidade, honra, humor, integridade, lealdade, persistência, prudência e respeito.  Os países que ensinam virtudes morais para crianças são classificados como os melhores sistemas educacionais do mundo além de serem os menos corruptos. Accountability pessoal é uma macro virtude moral porque quando ela é genuinamente incorporada, ela estimula ou acorda outros comportamentos absolutamente saudáveis. Como por exemplo, o pensar como dono moral, que significa que o individuo deixa de lado o modelo mental de ser vítima das circunstâncias e passa a assumir o papel de protagonista do seu próprio destino. Isso se aplica na vida pessoal, na vida familiar, na sociedade e na vida corporativa.Cinco coisas sobre demissões em tempos de pandemiaDurante esses quase 90 dias de quarentena, pude acompanhar o processo decisório de alguns gestores sobre a redução de despesas e, consequentemente, do quadro de pessoal. Uns decidiram por não demitir, mesmo sacrificando um pouco o caixa da empresa. Outros optaram por demitir de imediato. Compartilho pontos interessantes que observei e os convido a fazer uma breve reflexão sobre qual deve ser o nosso papel como líderes.

1. A maioria das demissões foi por performance

Muitos gestores me confessaram que os colaboradores que estavam sendo demitidos já vinham apresentando performance aquém do esperado ou tinham um histórico de relacionamento inadequado. Segundo eles, o corte não impactou a operação. Ou seja, os colaboradores já deveriam ter sido desligados. Reflexão: Se esta diminuição do quadro não afetaria a operação e se os colaboradores não estavam sendo desenvolvidos com um prazo específico, por que os gestores demoraram tanto tempo para tomar essa decisão?

2. Gestores responsabilizaram a circunstância

Quando questionei como foi o processo de desligamento e o motivo alegado aos colaboradores pela demissão, os gestores me disseram que o argumento foi a retração na economia causada pela pandemia. Não apontaram nem a baixa performance e muito menos o tema de relacionamento inadequado. Confessaram que postergaram feedbacks, deixaram de lado conversas francas por acreditarem que as pessoas poderiam melhorar naturalmente. Demitir pessoas nem sempre é fácil, mas deixá-las ir para o mercado sem um feedback claro não é correto: elas vão continuar errando sem saber em quais pontos podem melhorar. Reflexão: Será que estamos fazendo o bem para uma pessoa, ao demití-la sem que ela saiba onde deixou a desejar?

3. Quem não foi demitido, ficou estressado.

Demissões coletivas sempre causam stress naqueles que ficam. Os que não foram demitidos sentem culpa pelos colegas que saíram e entram inconscientemente em pânico por não saberem se serão os próximos a serem desligados. A partir de uma certa intensidade, o stress é nocivo, libera alta quantidade de cortisol e causa baixa produtividade. Reflexão: Se não for prioridade para o líder a saúde emocional do seu time, de quem será?

4. As demissões foram aos poucos

Em vez de desligarem todos de uma única vez, algumas empresas demitiram aos poucos. Em uma semana uns, na outra, outros, aumentando o sofrimento e a angústia de quem ainda não havia sido desligado. Esse processo deixou alguns colaboradores paranóicos tentando interpretar sinais nos seus gestores para saber se eles seriam os próximos. Ficavam lendo comportamentos, do tipo: “Ela não me deu bom dia no WhatsApp, será que eu vou ser demitido?” ou “Ele não me agradeceu como sempre fez, será que eu estou na lista?”. Um pensamento atribuído a Nicolau Maquiavel é: “O bem se faz aos poucos. O mal, de repente.” Reflexão: Será que esse pensamento de Maquiavel também pode fazer sentido para liderança?

5. O time que ficou não foi reorganizado

Notei que não houve por parte dos gestores um tratamento profilático para aqueles que ficaram, no sentido de redistribuir os trabalhos e reorganizar a rotina. Uma redução de quadro tão significante exige uma gestão semelhante a de uma recontratação, começando tudo de novo, inclusive revendo processos. Reflexão: Se o gestor não conduzir um processo de redefinição dos trabalhos, quem irá fazer? Desculpability é, por definição, o hábito de dar desculpas, apontar culpados ou culpar as circunstâncias. É o antivalor de Accountability. Esses dois conceitos são antagônicos, onde um está presente, o outro não entra. Em ambientes onde o pensamento de dono (Accountability) foi genuinamente incorporado, não cabem desculpas. Os efeitos nocivos da Desculpability são enormes e provocam no gestor até dez comportamentos absolutamente incompatíveis com a liderança. Como por exemplo, culpar as circunstâncias - no caso a pandemia - em vez de dizer que ele, gestor, é quem está insatisfeito com a performance ou com o comportamento; faltar com a franqueza, como omitir dos colaboradores feedbacks francos; e procrastinar, postergando demissões por acreditar que as pessoas vão melhorar “naturalmente”. Desculpability confunde a mente do gestor fazendo com que ele atue mais no modo gerente, administrando coisas, do que no modo líder, desenvolvendo as pessoas. Situações de crise como guerras, pandemias e recessões econômicas são momentos que sempre acabam revelando o pior e o melhor no ser humano. Virtudes morais como Accountability podem nos ajudar muito na nossa evolução como pessoas e como líderes.Quarentena, Home Office e perda do bom senso: será que estamos com excesso de Accountability?Assim como outros profissionais da área, migrei boa parte dos meus trabalhos presenciais para o digital, principalmente as sessões de mentoring com executivos do C-Level. Nesse cenário, identifiquei cinco traços de comportamento que me chamaram a atenção e me fizeram refletir a respeito do que tenho escrito sobre o conceito de Accountability. Trabalhei com os meus clientes todas essas situações e, juntos, já encontramos as soluções. Tudo resolvido! Fui encorajado - por eles mesmos - a compartilhar esse contexto, para que outros possam fazer a mesma reflexão:

Necessidade de ser visto como produtivo

Na maioria dos executivos, percebi uma necessidade enorme em se mostrarem ocupados e mais eficientes. Ficou clara a elevada cobrança sobre si mesmos e sobre os outros em entregar cada vez mais. Querer ser produtivo é muito bom, porém percebi exagero em alguns.

Admiração por longas jornadas

A carga horária de trabalho na quarentena aumentou. Em média o acréscimo foi de 15 a 20 horas semanais. Os executivos que tinham como padrão trabalhar das 9:00 as 19:00, no home office passaram a aceitar a rotina das 8:00 as 20:00 e, em alguns casos, até das 7:00 as 21:00. Não é errado trabalhar muito, errado é responsabilizar o gestor por prazos de entregas que nós mesmos concordamos em fazer.

Sentimento de abuso e culpa

Observei uma carga emocional inconsciente. Abuso por parte dos gestores - que poderiam ter demitido alguns membros do seu time e não o fizeram - que, inconscientemente, sentem-se no direito de demandar tarefas sem limite, sem etiqueta de comunicação e sem protocolo de horário comercial. Sentimento de culpa - também inconsciente - por parte dos colaboradores, gratos por não terem sido demitidos ou por se sentirem responsáveis em dar o máximo de si nesse momento, passam a pensar e agir como donos. Estes, acabam aceitando as demandas sem balancear corretamente o trabalho com as exigências da família e as tarefas de casa.

Convivência com novos colegas de trabalho

Crianças de 4 e 6 anos fazendo aula online de massinha, exigindo acompanhamento dos pais e compartilhamento dos seus equipamentos. Adolescentes fazendo pressão para receber seus amigos ou sair para encontrá-los. Sogros trazidos para dentro da casa, passando a fazer parte da dinâmica que agora também é corporativa. Tudo junto e misturado.

Desequilíbrio na distribuição do trabalho

Apesar de muitos homens que não pisavam na cozinha terem se tornado chefs, lavadores de prato e arrumadores de cama, o peso maior ainda recai sobre as mulheres, sobretudo pela exigência dos filhos. Por natureza, as mulheres são mais tolerantes à dor, reclamam menos, calam-se e sofrem mais. Elas estão pagando um preço mais alto, principalmente as que são mães e independentes. Será que os gestores estão percebendo isso? Para quem deseja saber mais sobre o conflito de ser mãe e executiva em tempos de COVID-19, recomendo a leitura de um estudo publicado na Revista Crescer, Coronavírus: Mães de crianças pequenas são as mais afetadas por estresse no isolamento”. Accountability é uma palavra que só existe no idioma inglês. A tradução mais próxima para o português seria: pensar, agir como dono e entregar resultados excepcionais. Não é uma competência e nem uma habilidade, é uma macrovirtude moral. E como todas as demais virtudes, necessita ser vivenciada com equilíbrio. Aristóteles acreditava na importância da ponderação na prática das virtudes, como por exemplo em relação à virtude coragem. Em excesso, a coragem torna-se imprudência e em sua ausência torna-se covardia. Um outro exemplo é em relação à virtude humor. No excesso, o humor torna o indivíduo inconveniente ou impertinente, e na ausência, o indivíduo torna-se sem graça ou cansativo. O segredo está no equilíbrio. O que eu tenho insistido com os meus clientes é na urgência em exercitar o bom senso e a ponderação. Para os gestores, tenho falado muito sobre a importância da empatia e da compaixão, com o propósito de entender o contexto de cada um do seu time. Apesar de estarmos todos na mesma tempestade, o gestor e seu time estão em barcos completamente diferentes. Pergunto a você gestor: você conhece a realidade do barco de cada um do seu time? Aos executivos, tenho incentivado o exercício da coragem para negociar ou até renunciar com bom senso, o prazo de entrega das tarefas solicitadas. Pergunto a você executivo, é o seu gestor que lhe impõe um ritmo insano de trabalho ou é você que tem uma alta exigência de si mesmo? Para saber mais sobre os limites da relação com o trabalho, recomendo a leitura do livro de Jeffrey Pfeffer. “Dying for a Paycheck”, também em português com o título, “Morrendo por um salário”. Acredito que a melhor aplicação da Accountability, no momento, é darmos o melhor de nós no trabalho sem perder a visão positiva do futuro nem a noção do tempo que devemos dedicar para nós mesmos e para os outros a nossa volta.